Moda e identidade
Como a roupa transcende o vestir e traduz os desejos do inconsciente coletivo
Como você se apresenta ao mundo é a sua identidade. É a sua armadura. A roupa transcende seu papel na moda.
Escavações comprovam o uso de agulhas feitas de ossos, que remetem 600 mil anos A.C. Se antes usávamos trajes unicamente para nos proteger do clima e do ambiente hostil, hoje sabemos que o que vestimos está conectado com nossa forma de expressão e bem estar.
Foi no Egito, durante o primeiro milênio A.C, que as roupas passaram a refletir identidades. Fiação, tecelagem e costura eram técnicas muito importantes para todas as sociedades egípcias. Os faraós, por exemplo, utilizavam pregas para mostrar status. Não apenas os egípcios, mas os romanos também atribuíram diferentes significados às roupas. A toga dos seus magistrados, por exemplo, era utilizada como forma de demonstrar autoridade.
Ainda assim, não existia uma autonomia estética individual para selecionar quais roupas vestir, devido às leis que ditavam o que era permitido ou não, por cada camada da sociedade.
Foi durante o período do renascimento europeu, entre os séculos 14 e 15, que aconteceram grandes transformações. As frequentes mudanças culturais passam a ser refletidas no vestuário e, com a ascensão da burguesia, a moda encontra um terreno fértil para se desenvolver. O que surgiu para identificar classes sociais distintas, passa a assimilar o papel de transmitir mensagens, refletindo também os movimentos sociais.
Hoje em dia, a moda é um reflexo importante da sociedade e interpreta seus códigos e sua cultura, definindo novos comportamentos. Moda não é mais somente sobre a roupa: ela transcende o vestir, traduz os desejos do inconsciente coletivo e dialoga com vários aspectos de nossas vidas, inclusive o bem estar.
Em 2012, um experimento liderado pelos cientistas Hajo Adam e Adam Galinsky (EUA) revelou que o vestuário pode afetar diretamente o nosso humor. Mais especificamente, que através de roupas com cores mais vibrantes podemos estimular a liberação de dopamina no cérebro.
A dupla de pesquisadores confirmou que o que vestimos pode sim influenciar o nosso emocional, ou seja, podemos fazer uma rápida análise sobre o outro (e sobre nós mesmos) através do vestuário. Cores, formas e texturas contam, silenciosamente, sobre como nos sentimos.
Lembro bem que, quando criança, usava a roupa como um escudo de proteção para não revelar meus medos e inseguranças. Vestia o básico com sofisticação, sempre muito atento aos detalhes. Hoje, utilizo a roupa como uma ferramenta de expressão genuína. Por meio da moda, expresso meu lado profissional, me posiciono socialmente e me liberto de traumas vividos na infância, que abalaram minha autoestima e confiança.
Meu estilo sempre refletiu quem eu era por dentro, meus conflitos pessoais com meu corpo, minha sexualidade e inserção social. Um dia já me senti preso dentro de mim, sem pertencer a um lugar, só que hoje, com a maturidade advinda de muitos desafios e provações, tenho novos sentimentos e outra maneira de me apresentar para o mundo. O que antes era uma defesa, agora expressa uma atitude.
Hoje, considero a roupa nossa primeira forma de comunicação, um recurso que nos permite expressar nossa visão de mundo e percepção de si. Isso porque nossas escolhas de consumo denunciam muito sobre como nos sentimos.
De que forma você expressa a compreensão que tem de si mesmo por meio das suas vestimentas? Já havia parado para pensar nisso?
Durante a pandemia, causada pelo COVID-19, vivemos um período prolongado de reclusão que nos colocou em um estado reflexivo. Nesse momento, a moda colaborou refletindo as necessidades sociais nos seus conceitos. A parte superior da silhueta assumiu o protagonismo, peças confortáveis tornaram-se indispensáveis e a venda de acessórios e maquiagem explodiu no mercado. Passamos a viver do umbigo pra cima.
Buscamos por peças que trouxessem emoções e nos fizessem sentir vivos. Roupas carregadas de memória afetiva, que nos lembravam de pessoas ou momentos especiais vividos, se tornaram um alívio para o coração.
Em 2022, com o vírus mais controlado, vivemos um período de expansão no estilo, um reflexo do que fomos privados de viver. Esse estilo maximalista, com cores vibrantes, roupas estruturadas e padrões gráficos ganhou o nome de Dopamine Dress e era um espelho da sede por diversão e conexão de uma sociedade pós pandêmica.
Minha percepção é de que, mesmo após esse longo período de lockdown, que ofereceu a oportunidade de nos auto avaliarmos, estamos vivendo um momento onde as pessoas estão muito mais reativas do que reflexivas. Arrisco dizer que, hoje, a moda reflete um período de incertezas. Em meio a guerras e recessões político-econômicas, vemos a ascensão do Quiet Luxury – mais minimalista e discreto – por exemplo, tolhendo o espaço da ousadia e criatividade.
Muito mais relacionado a um statement do que uma trend, esse modo de se vestir denuncia códigos específicos de um mundo exclusivo para sobrenomes poderosos, onde a logomania não tem vez.
Percebe o poder que a moda possui de comunicar o modo de pensar do seu usuário? Suas crenças, grupo social e identidade. Quando analisamos esse papel, percebemos que, em determinados pontos, a moda relaciona-se menos com a estética e mais com a moralidade, evitando conflitos com o que é aceitável dentro de determinado espaço social.
Por isso, transcende o assunto “o que vestir” e representa linguagem, identidade, poder e economia. O editorial do The Journal of Dress, Body and Culture define moda como uma “construção cultural da identidade incorporada”, rica em informações sociais. Por conta dessa influência, está diretamente ligada ao bem estar social e do indivíduo.
Partindo dessa questão, considero a moda - enquanto comportamento - um campo que dialoga com a saúde e bem estar coletivo e individual. Longe de ser algo banal, pode contribuir para uma melhora da nossa autopercepção e estima, tornando-se uma ferramenta valiosa dentro da análise de como o ser humano se relaciona e expressa questões pessoais inconscientes que talvez ainda não consiga verbalizar.
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